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Renato Nunes destaca a relevância do mês farroupilha


Trajado como gaúcho, o vereador declamou a poesia “Bochincho”, de Jayme Caetano Braun


Trajado como gaúcho, o vereador Renato Nunes/PR ocupou a tribuna do plenário do Legislativo caxiense, na sessão ordinária desta quarta-feira (06/09). O parlamentar destacou a relevância do mês farroupilha, em alusão ao dia 20 de setembro. “Uso o meu traje de gala, em locais e em datas especiais. Temos que priorizar as nossas raízes, tradições, os antepassados. Os farrapos chegaram a levar adiante um processo de separação do Rio Grande do Sul do restante do Brasil. Os jovens precisam pesquisar sobre a história gaúcha, para que ela se mantenha viva”, salientou.

A comemoração alusiva ao dia 20 de setembro de 1835 remonta ao início da Revolução Farroupilha, conflito que durou até 1º de março de 1845, data do acordo de Ponche Verde. Os gaúchos demonstravam insatisfações políticas e econômicas em relação ao Império da época. Não concordavam com os impostos cobrados sobre charque, couros e erva-mate. Em contrapartida, produtos importados da Argentina e do Uruguai recebiam incentivos do governo.

Confira a letra da poesia “Bochincho”, de Jayme Caetano Braun, declamada por Nunes:

A um bochincho - certa feita,

Fui chegando - de curioso,

Que o vicio - é que nem sarnoso,

nunca pára - nem se ajeita.

Baile de gente direita

Vi, de pronto, que não era,

Na noite de primavera

Gaguejava a voz dum tango

E eu sou louco por fandango

Que nem pinto por quireral.

 

Atei meu zaino - longito,

Num galho de guamirim,

Desde guri fui assim,

Não brinco nem facilito.

Em bruxas não acredito

'Pero - que las, las hay',

Sou da costa do Uruguai,

Meu velho pago querido

E por andar desprevenido

Há tanto guri sem pai.

 

No rancho de santa-fé,

De pau-a-pique barreado,

Num trancão de convidado

Me entreverei no banzé.

Chinaredo à bola-pé,

No ambiente fumacento,

Um candieiro, bem no centro,

Num lusco-fusco de aurora,

Pra quem chegava de fora

Pouco enxergava ali dentro!

 

Dei de mão numa tiangaça

Que me cruzou no costado

E já sai entreverado

Entre a poeira e a fumaça,

Oigalé china lindaça,

Morena de toda a crina,

Dessas da venta brasina,

Com cheiro de lechiguana

Que quando ergue uma pestana

Até a noite se ilumina.

 

Misto de diaba e de santa,

Com ares de quem é dona

E um gosto de temporona

Que traz água na garganta.

Eu me grudei na percanta

O mesmo que um carrapato

E o gaiteiro era um mulato

Que até dormindo tocava

E a gaita choramingava

Como namoro de gato!

 

A gaita velha gemia,

Ás vezes quase parava,

De repente se acordava

E num vanerão se perdia

E eu - contra a pele macia

Daquele corpo moreno,

Sentia o mundo pequeno,

Bombeando cheio de enlevo

Dois olhos - flores de trevo

Com respingos de sereno!

 

Mas o que é bom se termina

- Cumpriu-se o velho ditado,

Eu que dançava, embalado,

Nos braços doces da china

Escutei - de relancina,

Uma espécie de relincho,

Era o dono do bochincho,

Meio oitavado num canto,

Que me olhava - com espanto,

Mais sério do que um capincho!

 

E foi ele que se veio,

Pois era dele a pinguancha,

Bufando e abrindo cancha

Como dono de rodeio.

Quis me partir pelo meio

Num talonaço de adaga

Que - se me pega - me estraga,

Chegou levantar um cisco,

Mas não é a toa - chomisco!

Que sou de São Luiz Gonzaga!

 

Meio na volta do braço

Consegui tirar o talho

E quase que me atrapalho

Porque havia pouco espaço,

Mas senti o calor do aço

E o calor do aço arde,

Me levantei - sem alarde,

Por causa do desaforo

E soltei meu marca touro

Num medonho buenas-tarde!

 

Tenho visto coisa feia,

Tenho visto judiaria,

Mas ainda hoje me arrepia

Lembrar aquela peleia,

Talvez quem ouça - não creia,

Mas vi brotar no pescoço,

Do índio do berro grosso

Como uma cinta vermelha

E desde o beiço até a orelha

Ficou relampeando o osso!

 

O índio era um índio touro,

Mas até touro se ajoelha,

Cortado do beiço a orelha

Amontoou-se como um couro

E aquilo foi um estouro,

Daqueles que dava medo,

Espantou-se o chinaredo

E amigos - foi uma zoada,

Parecia até uma eguada

Disparando num varzedo!

 

Não há quem pinte o retrato

Dum bochincho - quando estoura,

Tinidos de adaga - espora

E gritos de desacato.

Berros de quarenta e quatro

De cada canto da sala

E a velha gaita baguala

Num vanerão pacholento,

Fazendo acompanhamento

Do turumbamba de bala!

 

É china que se escabela,

Redemoinhando na porta

E chiru da guampa torta

Que vem direito à janela,

Gritando - de toda guela,

Num berreiro alucinante,

Índio que não se garante,

Vendo sangue - se apavora

E se manda - campo fora,

Levando tudo por diante!

 

Sou crente na divindade,

Morro quando Deus quiser,

Mas amigos - se eu disser,

Até periga a verdade,

Naquela barbaridade,

De chínaredo fugindo,

De grito e bala zunindo,

O gaiteiro - alheio a tudo,

Tocava um xote clinudo,

Já quase meio dormindo!

 

E a coisa ia indo assim,

Balanceei a situação,

- Já quase sem munição,

Todos atirando em mim.

Qual ia ser o meu fim,

Me dei conta - de repente,

Não vou ficar pra semente,

Mas gosto de andar no mundo,

Me esperavam na do fundo,

Saí na Porta da frente...

 

E dali ganhei o mato,

Abaixo de tiroteio

E inda escutava o floreio

Da cordeona do mulato

E, pra encurtar o relato,

Me bandeei pra o outro lado,

Cruzei o Uruguai, a nado,

Que o meu zaino era um capincho

E a história desse bochincho

Faz parte do meu passado!

 

E a china - essa pergunta me é feita

A cada vez que declamo

É uma coisa que reclamo

Porque não acho direita

Considero uma desfeita

Que compreender não consigo,

Eu, no medonho perigo

Duma situação brasina

Todos perguntam da china

E ninguém se importa comigo!

 

E a china - eu nunca mais vi

No meu gauderiar andejo,

Somente em sonhos a vejo

Em bárbaro frenesi.

Talvez ande - por aí,

No rodeio das alçadas,

Ou - talvez - nas madrugadas,

Seja uma estrela chirua

Dessas - que se banha nua

No espelho das aguadas!

06/09/2017 - 14:15
Assessoria de Imprensa
Câmara Municipal de Caxias do Sul

Editor(a) e Redator(a): Fábio Rausch - MTE 13.707

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